sexta-feira, 30 de dezembro de 2005

Eis o sacrifício de Cristo meu Irmão

Um guia para redescobrir a missa

Entrevista com o padre Juan Javier Flores Arcas, osb


ROMA, domingo, 25 de setembro de 2005 (ZENIT.org).- Compreender as partes da missa leva a redescobrir a Eucaristia. Com esta constatação, o presidente do Pontifício Instituto Litúrgico de Roma, o padre Juan Javier Flores Arcas, beneditino, explica nesta entrevista concedida a Zenit as partes da missa e as peculiaridades da celebração eucarística dominical.

Em dias passados, o padre Flores compartilhou com nossos leitores uma explicação sobre este sacramento que o levou a falar de «O milagre da missa» (Cf. Zenit, 20 de setembro de 2005).

--Qual é a estrutura da missa?

--Pe. Flores: A missa consta de duas partes, a liturgia da Palavra e a liturgia eucarística, tão estreitamente unidas entre si que constituem um só ato de culto. Uma dupla mesa precedida de alguns ritos de entrada e dos ritos conclusivos, como abertura e conclusão da celebração.

A Mesa da Palavra de Deus prepara a Mesa do Corpo de Cristo e ambas mesas por sua vez e inseparavelmente constituem a Eucaristia ou Ceia do Senhor.

A Palavra de Deus lida e anunciada pela Igreja na liturgia da Palavra conduz ao sacrifício, ao memorial e ao banquete, ou seja, à Oração Eucarística, que é o centro da segunda parte da missa, que é a Mesa ou liturgia eucarística.

--Como se desenvolve a liturgia da Palavra?

--Pe. Flores: Na liturgia da Palavra anuncia-se e proclama-se o que se renova na liturgia da Eucaristia, portanto a celebração da missa, na qual se escuta a Palavra e se recebe e oferece a Eucaristia, constitui um único ato de culto («Sacrosanctum Concilium», 56) no qual se oferece a Deus o sacrifício de louvor e se confere ao homem a plenitude da redenção.

Na Quinta-Feira Santa de 2000, Sua Santidade João Paulo II aprovou a revisão da «Institutio Genrealis Missali Romani», popularmente conhecida como a Introdução Geral do Missal Romano. Esta nova revisão reemprega a edição de 1975 da «Institutio Generalis». Desde o começo, é importante que se compreenda que a «Institutio» revisada aparece como uma prolongação direta da Constituição da Sagrada Liturgia («Sacrosanctum Concilium») do Segundo Concílio Vaticano e da antiga Instrução Geral do Missal Romano de 1975. Como estes dois documentos iniciais, as prescrições da nova «Institutio» se hão de ver como maneiras concretas de especificar e sublinhar a natureza e a importância da sagrada liturgia na vida da Igreja.

--Que diferenças há entre a missa do domingo e a missa de cada dia?

--Pe. Flores: Todos os dias se celebra a Eucaristia, centro de toda a vida espiritual da Igreja inteira. De modo especial, o domingo é o dia da Eucaristia, a páscoa semanal, o dia da Igreja convocado pelo Senhor Ressuscitado. Ainda que o domingo seja o dia mais eucarístico da semana, cada dia se celebra a Eucaristia e se atualiza portanto o mistério pascal de Cristo.

De modo magistral o expressou o Papa João Paulo II no número 12 da encíclica «Ecclesia de Eucharistia»: «A Igreja vive continuamente do sacrifício redentor, e acede a ele não somente através de uma recordação cheia de fé, mas também em um contato atual, posto que este sacrifício se faz presente, perpetuando-se sacramentalmente em cada comunidade que o oferece por mãos do ministro consagrado. Deste modo, a Eucaristia aplica aos homens de hoje a reconciliação obtida por Cristo uma vez por todas para a humanidade de todos os tempos».

O sacrifício de Cristo e o sacrifício da Eucaristia «são, pois, um único sacrifício. Já o dizia eloqüentemente São João Crisóstomo: “Nós oferecemos sempre o mesmo Cordeiro, e não um hoje e outro amanhã, mas sempre o mesmo. Por esta razão, o sacrifício é sempre um só [...]. Também nós oferecemos agora aquela vítima, que se ofereceu então e que jamais se consumirá”».

--Mas no domingo há mais leituras, a homilia é obrigatória...

--Pe. Flores: Não há nenhuma diferença --no plano sacramental-- entre a Eucaristia do domingo e a de cada dia. Ainda que é certo que tanto no plano celebrativo como pastoral a Eucaristia do domingo é mais completa quanto aos elementos e aos sinais. A liturgia da Palavra tem três leituras, os dias feriais só dois. É obrigatória a homilia dominical, enquanto que só aconselhável nos dias comuns. Cantam-se o glória e se recita o Credo ou a Profissão de fé. Sem ter variações substanciais, posto que em cada Eucaristia se perpetua o mistério pascal de Cristo, seja dominical ou seja diário, os sinais dominicais são mais festivos, mais completos; sem alterar-se em nada a mesma celebração, a dominical é mais festiva.

--Por que ir à missa aos domingos?

--Pe. Flores: Disse admiravelmente bem a constituição conciliar de liturgia em seu número 106 quando escreve que: «A Igreja, por uma tradição apostólica, que traz sua origem do mesmo dia da Ressurreição de Cristo, celebra o mistério pascal cada oito dias, no dia que é chamado com razão “dia do Senhor” ou domingo. Neste dia os fiéis devem reunir-se a fim de que, escutando a palavra de Deus e participando da Eucaristia, recordem a Paixão, a Ressurreição e a glória do Senhor Jesus e dão graças a Deus, que os “fez renascer à viva esperança pela Ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos” (I Pe, 1,3). Por isso, o domingo é a festa primordial, que deve apresentar-se e incutir-se na piedade dos fiéis, de modo que seja também dia de alegria e de libertação do trabalho. Não se lhe anteponham outras solenidades, a não ser que sejam realmente de suma importância, visto que o domingo é o fundamento e o núcleo de todo o ano litúrgico».

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